Como Perder Barriga – 3

Antes da fase gordura localizada no abdômen, eu frequentava academia três vezes por semana. Ralava muito. Suava a camisa. Ainda, hoje, me lembro da sequência de exercícios.

1.º) abdominais: elevação de pernas, frontal, bike e com inversão;

2.º) bíceps: rosca inversa, rosca concentrada, rosca martelo, rosca direta e rosca alternada;

3.º) costas: remada unilateral, puxada na frente com triângulo na polia lata, puxada na frente com polia alta e puxada alta com braços estendidos;

4.º) peito: crucifixo (ou fly), crossover (ou Pulley cruzado), supino inclinado e supino reto;

5.º) perna: glúteos quatro apoios e perna estendida, abdução de quadril, mesa flexora, cadeira extensora, gêmeos sentados e leg press inclinado;

6.º) tríceps: francês, kick back, corda e Pulley; e

7.º) ombro: remada alta, desenvolvimento com halteres, elevação frontal e elevação lateral.

Isso sem contar com os alongamentos, que eram feitos antes e depois dos exercícios de musculação acima.

No afã de puxar ferros, era normal a gente se perder entre um exercício e outro, e procurar uma tabela, onde estava escrita a série e a quantidade de repetições por dia. Quando havia dúvidas, sobre a maneira correta de fazer aquele exercício, procurava-se o professor de educação física. Ele sempre estava de olho vivo. Seguia à risca o lema dos escoteiros: “Sempre alerta”. Se alguém cometia algum erro, o professor censurava-o.

E, por ser muitos exercícios, mal se tinha tempo de conversar. Bater um papo era sinônimo de que o exercício físico se prolongaria pela manhã afora. Nos dias em que vivemos, tempo é dinheiro. E até hoje não conheci uma vivalma que queira jogar dinheiro pelo ralo do banheiro.

(Se você conhecer alguém que não goste de dinheiro. Avise-me. Faça uma caridade. Que este alguém tão desprovido de apego material, faça uma doação para minha conta bancária. O ministério da saúde financeira agradece.)

Bem, o que falei aqui se refere a grande massa. O público que segue ao pé da letra as regras do mercado capitalista. No entanto, de quando em vez, surge um peixe fora d’água. Alguém que fura a fila, e infringe as regras não ditas, mas seguidas por todos.

Neste caso, o peixe fora d’água era Luciano. Um amigo, bastante peculiar, que me aflige com perguntas estapafúrdias. Às vezes, de arrepiar os cabelos da cabeça. Eu sei que ele não faz por mal. Mas sua atitude incongruente, seu jeito de agir e pensar, incomodam. Tiram qualquer um do sério. Uma pergunta desconcertante, que ele me faz é esta:

— Ei! por que todo mundo arranja uma namorada; e eu, não?

No dia, eu estava concentrado. Puxava, para cima e para baixo, um Kettlebell — era uma bola de ferro com alça, muito usada na Europa no século XVI, lá, homens fortes usavam-nas para demonstrar suas forças, participando de jogos e competições. De tal forma que não percebi a chegada de Luciano.

— Pelo visto está em forma — disse meu amigo, com ares de desgosto. Luciano já possui umas gordurinhas localizadas. — Com um pouco mais de exercício, transforma-se em palito de dentes.

— Você quer dizer: em forma de bujão de gás — respondi, ríspido. Pois sabia que Luciano gostava de fazer os outros de bobo. — E para chegar a palito de dentes falta muito!

— Não perca a esperança. Ela é a última que morre.

— Por falar nisso, matei uma ontem — falei, referindo-me ao inseto, cujo par de asas anterior se assemelha com folhas. — E ainda estou vivo.

— Não me diga isso! — exclamou Luciano, como se algo extraordinário ocorresse.

Parei o exercício que fazia. Pus-me a fitar o rosto de Luciano, à cata de alguma razão para seu espanto. Por mais que o sondasse, não consegui ler suas expressões faciais.

— Você não sabia?… encontrar uma esperança morta é presságio de mau agouro. E o que me dirá se matar um desses bichinhos?

— Não sei! — falei, dando de ombros. — Talvez eu morra, no lugar do defunto. Em breve, viajarei na máquina do tempo. Com controle remoto na mão, justo no instante que pisei no inseto, eu daria um stop na ação. Removeria o bichinho debaixo da sola do meu sapato. Enxotaria a esperança para longe. E tomaria o seu lugar. A seguir, ligaria o play. Por fim, esperava a morte pela sola do meu sapato. Que legal!

— Você é muito presunçoso. Já lhe disseram isso?

— Muitas vezes.

— E por que não se emenda?

— Ainda não criaram a cola-tudo para me emendar.

Luciano afobou-se. A cara fechada. A morte da esperança deixava-o encabulado. Cabisbaixo. Saiu de perto de mim, com semblante abatido.

Abatido?

Abatido.

As más-línguas falam que Luciano é doido de pedra. Eu não acredito. Acho que ele tem traumas de infância mal resolvidos. Se tomasse a medicação correta, teria uma qualidade de vida melhor. Enquanto isso, vai vivendo ao deus-dará.

Compadeci-me, então, de Luciano. Na verdade, eu não matei a esperança. Só disse aquilo para afugentá-lo. Não queria que me atrapalhasse no exercício físico. Pois estava determinado a perder barriga.

A esperança? Ontem, ela pousou na minha cabeça. Fez cabriolés. Esticou as pernas. Coçou as orelhas. Esfregou as patas nos olhos. Enfim, pintou o sete. Depois, tangi para longe aquele gadinho. Com um leve peteleco. Ela voou. E se foi. Eu jamais teria coragem de matar um bicho daquele.

Luciano? Parei o exercício físico e fui atrás dele. Dei-lhe minhas satisfações. Arrependi-me da asneira pronunciada. Luciano entendeu. E repreendeu-me. Nunca pensar em matar um bicho santo que nem a esperança. É pecado. Fiz que sim, com a cabeça.

Engoli meu orgulho em seco. Paguei o preço por destratar Luciano. Demorei-me mais na academia. Mais suor e dor. Até que cumpri a promessa de completar aquele circuito de exercícios excruciantes.

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