Depressão

Cinco horas da manhã, marca o relógio de parede. Vontade de levantar-se da cama: olho de boi. Este era o nome que se dava ao zero, nos tempos de escola. Enrolo-me no lençol da cabeça aos pés. Fico na minha posição favorita: fetal. Pesco o sono. Fecho os olhos. Na escuridão, apalpo o meu rosto. O que fazer para dormir?

Conto alguns carneiros, que pulam cercas imaginárias. Um, dois, três. São brancos. Evocam a paz, que eu perdera. Quatro, cinco, seis. Desassossego invade-me a mente. Por aonde anda a paz? Sete, oito, nove. Em que planeta da Via-Láctea, ela perde-se? Dez, onze, doze. Os carneiros aumentam de tamanho. Treze, quatorze, quinze. Estão mais gordos e altos. Dezesseis, dezessete, Dezoito. Um deles, ao pular, esborracha-se no chão. Está pesado. Os demais carneiros se atrapalham. Caem sobre o companheiro estirado ao chão. Acumulam-se um sobre o outro. A massa de carneiros estropiados cresce. Quebra a cerca. Vira uma montanha. Perco a visão do horizonte. Os carneiros bloqueiam a luz solar. Cai a noite. Por medo de pesadelos, desisto de contar os carneiros. Aliás, sem cerca, qual é o sentido de se contar os carneiros? Esta é a pergunta-chave. Tudo é horrível e desespero?

Súbito. Jogo o lençol para longe. Levanto-me da cama. Calço as pantufas do Pateta. De pijama, sigo até a cozinha.

Ponho a água para esquentar. Sento-me numa cadeira de madeira, acolchoada. Espero. A vida é uma longa espera pela morte irrefutável. O bule ferve. A fumaça esvai-se pelo bico. Faz um barulho irritante, como se fosse um apito de fábrica, anunciando o fim do serviço estafante. Estou esgotado. Tenho olheiras. Talvez seja o sono que não quer me pegar. Quero beijar a lona. Deitar e dormir. É tão simples assim. Desperto do País dos Sonhos Acordados. Desligo o fogo. O fogão velho faz um rugido. Parece que deu o derradeiro suspiro. Por que tudo me lembra a morte?

Ponho uma xícara na mesa. Deito duas colheres de chá com café. Misturo com duas colheres de açúcar. Verto a água quente na xícara. Fito a substância preta e o vapor que sobe. A fumaça evola-se. Faz curvas incompletas, que desaparecem no ar. Contemplo a paisagem do café sobre a mesa. Se a vida fosse uma linha reta? A vida, no entanto, faz curvas. Estas se findam, sem dar satisfação a ninguém. Por que o mundo anda em câmara lenta?

Empurro o café para dentro da boca. Engasgo-me. O café não desce pela garganta. A glote fecha a passagem. É um áporo matemático. Como desbloquear o caminho para o estômago? Na verdade, perdi o apetite. Pego de uma colher pequena. Mexo o café. As bolhas formam um desenho na superfície. Tento interpretar. Do que se trata? Talvez seja um boi. Vejo os chifres, a boca e os olhos. Será que me recorda uma pintura de Picasso? Vasculho a mente. Uso de associação de ideias. Demoro-me a olhar uma vaca na embalagem do leite, que dormiu a noite inteira na mesa. Vago por regiões desconhecidas do meu cérebro. Achei! É Guernica. Tenho fome, mas foge-me a vitalidade. Não tenho forças para comer o que quer seja. Guernica lembra-me um prato saboroso. Qual será? Esforço-me. A resposta não sai da cabeça. Sei que está lá. Onde?

Eis a questão.

Sinto-me como um mágico, que tenta arrancar o coelho da cartola. O coelho, contudo, agarra-se às paredes da cartola. O mágico puxa. O coelho finca as unhas na cartola de feltro. A cartola rasga-se de alto a baixo. O coelho foge. O mágico sai ao encalço do bicho. O coelho desaparece. O queixo do mágico cai. A plateia rir. Cerram-se as cortinas. Acabou o espetáculo. Que espetáculo, se não estou num circo?

Recordo-me do meu emprego. O chefe grita. Não sei por que ele grita tanto. Como a goela aguenta? Ah! É por minha causa. O que faço? Deixo o relatório de compras e vendas atrasado. As teclas escapolem dos meus dedos. Passo de cinco a dez minutos caçando a letra agá. Onde foi parar? Largo o assento do escritório. Finjo que está tudo bem. Sigo ao sanitário. Esvazio a bexiga. Chego ao filtro, posto no corredor do edifício. Bebo dois ou três copos cheios de água. Volto para o meu guichê. Preciso terminar o relatório. Caso não termine, o chefe comerá o meu fígado. O problema persiste. A letra agá desaparece. A vista está péssima. Preciso visitar o oculista. Errado! Enxergo uma formiga-açucareira a quilômetros de distância. Cancelo a visita ao oftalmologista. O que acontece com a letra agá?

Suspiro. Fico exausto.

Levanto da cadeira. Lavo a xícara, o bule e a colher. Guardo o açúcar e o café no armário. Enxugo uma gota de suor. Já são horas de calor? Espio pela janela de vidro da cozinha. De fato, os raios do Sol anunciam o alvorecer. O céu pintou-se de azul-claro. Umas nuvens esparsas teimam em navegar por ares caudalosos. O vento sopra forte. Por pouco, arranca o balde de lixo para fora do seu eixo de equilíbrio. O balde resiste. Não cede. Vence. O vento deixa-o em paz. Por quanto tempo persistirá o sossego?

Arrasto as pantufas pelo longo corredor, que me leva de volta à cama. Três palavras assaltam os meus pensamentos: Leito de morte. Faz escuro dentro de mim, mas eu sobrevivo. Nunca vi noite sem dia. Não desisto à-toa. A luta é renhida.

Deito-me. Jogo-me nos braços dos lençóis, como um amante abraça-se com a amada. Espreito o relógio de parede. O ponteiro emperra às seis horas e quinze minutos. Bocejo. Enfado-me do tique-taque. Por que o relógio não faz outro barulho? Sei lá! Quem sabe tique-tique ou taque-taque? Perco-me, então, por devaneios tolos. De repente, quando dou por mim, o relógio está mudo.

Será possível? Até o relógio está contra mim?

Quer me matar, verme? brado.

O relógio não reage. Mudo está, calado fica. Irrita-me a não violência do relógio ao meu vozeirão. Se fosse outro dia qualquer na minha vida, erguia-me, consertava o relógio em três passos ou menos. Suspeito que as pilhas falharam. Cubro-me com o lençol da cabeça aos pés. Viro-me de lado. Apoquenta-me a ideia do silêncio. Cabreiro, abro uma brecha no lençol enorme. Espio o relógio. Está lá: cego, nu e mudo. Apiedo-me do coitado. Quem sabe se não é de mim mesmo? Levanto-me. Removo-o da parede. Está sujo, com umas teias de aranha ao derredor. Vou à despensa. Pego um espanador. Limpo-o. Sopro. A poeira voa. Lustro-o. Brilha por fora. Acho uma chave de fenda. Abro-o. O mecanismo falhou, por conta da pilha. Onde estão as novas? Guardadas na garagem. Troco as pilhas. Espero um pouco. O relógio funciona. Ouço o seu tique-taque. Está nítido. Aproveito para encharcar as engrenagens de óleo. Retorno à cama. O relógio está ao lado do meu corpo. Penduro-o na parede.

Observo aquela obra de arte do engenho humano. Uma vez doente, que eu tenha, no mínimo, uma companhia decente.

Deito-me bruscamente. O tique-taque do relógio soa pelo quarto afora. Nasce em mim uma nesga de felicidade. É tão ínfima, que logo a tristeza volta a reinar no meu ânimo. Acomodo-me perto do canto da parede. O meu travesseiro macio embala-me no sono prazenteiro. O sono, porém, não vem. Fecho as pálpebras. Apalpo o escuro à caça do sono perdido. É a insônia que não larga o meu pé.

Chulé. Sinto o cheiro fétido de pé mal-lavado. Aliás, faz uma semana que não tomo banho. Com o calor que faz, o suor que pinga, a preguiça que se consome em cima desta cama, tudo me leva ao fedor do meu corpo.

As cortinas da janela estão fechadas. Uma luz tênue atravessa o quarto. Espreguiça-se aos meus pés. Enxoto o pedaço de luz para longe de mim.

Xô!

Esqueço-me. O fragmento de luz não é galinha. De teimoso, ele fica parado. Bisbilhota os bolsos do meu pensamento. Vejo os seus grandes olhos, a prospetar-me. Sou alguma jazida de petróleo? Onde arruma os olhos? Afobo-me. Esmurro a parede, que me devolve o soco. A mão dói. A dor é passageira. Aguento as pontas. Tenho vontade de gritar:

Ai!

A voz some-se na boca seca. Preciso beber água. A coragem esvai-se. Seja determinado! A vida é dura. Se não for mais duro, sucumbirá! Por enquanto, rendo-me. Tomo fôlego. Hei de fazer isto e mais! Para vencer uma escada: suba um degrau por vez.

Levanto. Sigo ao espelho mais próximo. Defronte ao espelho, arregalo os olhos com os dedos indicadores e opositores. Vejo listras vermelhas em redor da pupila. Isto não é grave. É consequência das noites sem dormir. Investigo as narinas. Puxo a ponta do nariz para cima. Observo. Nada de estranho sucede. O que achar? Um nariz que sangra? Alguma meleca que passeasse pela cavidade nasal? Abro a boca. Aproveito para bocejar. Ponho a mão de frente à boca. Não sei por que adquiri este hábito? Temo que algum mosquito entre pela boca? Eca! Comer mosquito? Imagine. Ponho a língua de lado. Sondo cada dente. Esquadrinho o céu da boca. Procuro por algum querubim de seis asas. Não há; nem sequer um! Espicho as orelhas. Com outro espelho à mão, pesquiso cada fresta, por menor que seja. Não encontro indício de sujeira. De ordinário, pego um cotonete e limpo os ouvidos. Hoje, contudo, esqueço-me disto. Estou vexado.

Volto à posição de decúbito dorsal. Na cama, enfronhado nos meus lençóis, recordo-me. A água para beber? Bato com a mão à testa. O estalo apavora-me. Pode despertar os monstros, resquícios da minha infância. Assombrada por Bicho-Papão e companhia ilimitada.

Marina!

É o meu redemoinho de tormentos. Se ela não saísse de casa. Fique em casa; deixe para trás o que é inútil! Adverti. Escutou-me? Não! Se o carro não a atropelasse. Por que os motoristas correm? Por que há tanta pressa para tão pouco tempo? Se chovesse, Marina estaria viva. Abominava os pingos de chuva nos seus cabelos ondulados.

O corpo jazia no asfalto quente. Um jornal velho pousou no seu rosto. Até na hora da morte, ela lia. Leitora que devorava letras e números. A seu ver, os livros eram ilhas da fantasia. Por outro lado, desabei. Quando enxerguei esta cena, o meu coração esmoreceu. Socorreram-me. A custo, reconheci o cadáver no necrotério. Foi-se a minha esposa. Que se vão os anéis, fiquem os dedos! Dirão. Confesso que sou fraco. Não supero este episódio. Dia após dia, ele atormenta-me. Se durmo, vejo Mariana na penumbra. Vaga pela nossa casa. Reconheço-a pelas fímbrias do vestido, que se arrastam pelo assoalho, molhado com as minhas lágrimas. Corro pelos corredores. Vou ao encalço de Marina, a inexistente.

Marina! grito.

Ela não me ouve. Está distante. Posso ver o seu rosto. Cobriu-se de uma névoa negra. Lesto. Corro pelos corredores da nossa casa. Perto de tocar-lhe a pele. Estendo a mão. Os meus dedos esticam-se o mais que podem. Frágeis. Quebram-se, antes que alcancem o alvo. Marina desaparece tão misteriosamente quanto antes. Fico absorto. Os meus dedos são mil estilhaços no chão. O meu queixo cai. Apanho o queixo moribundo. Recolho os cacos dos meus dedos. Prego cada qual no seu lugar, com a ajuda do cola-tudo.

É horrível viver sem Marina. Sinto o cheiro do seu perfume predileto. O odor alça voo pelos ares. Para onde me viro, lá está o perfume, acompanhando-me. Do cheiro origina-se um sentimento de perda. Se eu pudesse, ressuscitaria Mariana para viver somente mais um dia comigo. Aí, sim, falaria que a amo. Isto bastava. Ela viveu mais de dez anos comigo. Eu jamais disse que a amava. É isto que me dói. Perdi tanto tempo com futilidades. O mais importante no nosso relacionamento, nunca o confidenciei.

Decerto. Preciso fazer um balanço da minha vida. Fazer uma lista. Pegar um papel em branco. Dividi-lo em duas colunas. Uma conterá o que houve de negativo (palavrões, maus pensamentos, tentativas de suicídio); a outra, de positivo (carinhos, abraços, conselhos). Faço isto. Ponho-me a escrever. A escrivaninha fica dentro do quarto, junto aos meus pés, quando me deito. É fácil de citar tudo quanto é de ruim. Difícil é achar algo de bom para colocar na lista. Escrevo três palavras. Enfado-me. A boca seca alerta-me que não fui à cozinha.

Arrasto-me, como uma lesma patética até a geladeira. Abro a porta. Consulto cada item comestível que pousa em suas prateleiras. Esqueci-me do que procurava. Sei que é algo essencial para a vida. Senão, estava no meu quarto. Queijo? Mortadela? Presunto? Cuscuz, de ontem? Suco de graviola? Suco de cajá? Tapioca? Vinho? Melancia? Melão? Uva? Nada disso me alegra os olhos. Agradeço a mamãe por fazer as minhas compras. Ela visita-me toda semana, trazendo consigo inúmeras sacolas com víveres.

Passa-se cinco minutos. A geladeira está aberta. O relógio da energia elétrica gira mais rápido. Tenho que fechar a geladeira, senão a conta estoura. O que vim fazer aqui? Não sofro de amnésia. Vamos! Pense mais um pouco. Esforce-se! Não me vem à memória o que estava fazendo ali. Fecho a porta da geladeira, com força. Plaque! Ao ouvir o estalido, minha mente desperta da letargia. Recordo-me da água para beber. Abro-a imediatamente, antes que me esqueça. Pego de uma garrafa d’água. Ela está gelada, em suas paredes de vidro formam-se alguns respingos. Despejo a água num copo americano. Sorvo avidamente o líquido. Sacio a sede. Coloco o copo na pia, para lavar depois. Na pia, acumulam-se pratos, copos e talhares. Adio as tarefas do lar o mais que posso. Ponho a garrafa na geladeira. Fecho o eletrodoméstico. Volto à escrivaninha.

O que há de bom?

Se penso nas férias que tivemos no último Natal, em que visitamos os Alpes suíços. Logo vem à mente o tombo que levei, ao esquiar. Surge a marca roxa e enorme, que cobriu braços, pernas e tórax. O médico disse que seria mais grave, se partisse uma costela. Havia a possibilidade de atingir o coração. Esta notícia deixou-me pasmo. Escapei da morte por um triz. Aliás, posso declarar, sem medo de errar, que as diversões falharam em todas as férias. A primeira, um trem descarrilou. Atrasamos a nossa chegada no hotel. Em Itália, perdemos a nossa vaga. Em seguida, voltamos ao Brasil. A segunda, o iate que alugamos afundou. O dono não tinha os cuidados necessários. Uma pequena rachadura no casco abriu as portas para as águas do mar. A terceira, o pneu do carro furou. A estrada era deserta, ficamos horas sem comunicação com o mundo exterior. A mãe de Marina quase perdia os cabelos. Se eu continuar com os imprevistos, todos pensarão: É um filme de comédia. Dessa maneira, jamais colocarei na lista a palavra “férias”. Todas sempre me foram frustrantes.

Se cogito nos encontros de namoro entre mim e Marina. Recordo-me de um restaurante francês, em Paris. Brindávamos o noivado bem-sucedido. Os pais de Marina ficaram felicíssimos com o anúncio de nosso compromisso. Distribuíram-me risos, apertos de mãos, abraços apertados e tapas nas costas. No restaurante, um garçom derramou vinho nas minhas calças compridas. Tivemos que procrastinar a nossa celebração. Com as calças molhadas, fiquei sem jeito. Num átimo, a alegria foi-se embora. Aliás, sempre havia algo para atrapalhar os nossos encontros. Um sobrinho petulante, que nos vigiava no sofá de casa. Uma mãe ciumenta, que não largava o pé da filha. Um pai carrancudo, que ficava com um olho no televisor, assistindo o futebol da quarta-feira à noite; e o outro, no comportamento da filha e do futuro genro. Dizia-me para não abusar da sorte. Qualquer coisa, passava-me o chumbo grosso. Levantava o braço, ameaçando-me. Mostrava o muque. No passado, fora pugilista. Derrubara algumas dezenas de homens no ringue. Dessa maneira, jamais colocarei na lista as palavras “encontros de namoro”. Todos foram uma lástima!

Pego a lista entre as minhas mãos. Rasgo. Picoto cada pedaço de papel. Enfurecido, arremesso-os no lixeiro. Desconto a minha fúria. Uma chuva de papel picado molha-me. Por que a vida não me dá restritamente o que é bom? Por que na contabilidade do que fiz e sofri, o mau sobeja? Um grito de desespero sobe até a garganta. Da garganta, porém, não passa. Fica entalado. Nem sobe, nem desce. As minhas duas mãos bloqueiam o pescoço. Se eu pudesse, arrancaria a goela fora. Preciso da goela. O que é isso? Já não basta o suplício de ficar na cama o dia inteiro. Perdi a vontade de viver. Estou à beira de um precipício. Tudo que me resta são lembranças de quem fui. Aliás, quem fui não me interessa. Hoje, sou outra pessoa. Sei disso. Em derredor, resta-me os pingos de papel da chuva. Embolo-me no chão. Quero molhar-me com os pedaços de papéis. Faz dias que não vejo água. Os papéis não me molham. Caio num poço profundo de melancolia. Ponho as mãos no meu rosto. Desato a chorar. Choro sem vontade alguma. É algo involuntário. Não sei qual o motivo do choro?

Ao menos, não sei ao certo. Será Marina, que me deixou e foi morar no céu, junto com os anjos e arcanjos? Marina, por que você me esqueceu? Será que choro por causa do papel picotado, que não quer me molhar? De fato, se quero molhar-me, por que não vou ao chuveiro? Estas e outras perguntas afligem-me.

Regresso à cama, cerro os olhos. Que horas são? O relógio e seu tique-taque incessante sussurram em meus ouvidos que são onze horas. Eu não acredito! O tempo urge. Rujo, como fazem os leões. Que espécie de leão, eu sou? Daqueles que são decrépitos. Vivem enjaulados no jardim zoológico. A vida inteira é um movimento pendular. Ida e vinda, da jaula para o quintal, que não tem sequer dez metros quadrados de área. A grama é sintética. Os muros são altos. A desolação é evidente. Certa vez bateu-me à porta a vontade ingente de soltar os leões do jardim zoológico. Sei que era asneira de criança. À época, eu tinha uns onze anos. Desgostava-me ver os leões tristes. Aquelas feras nasceram para ser livres. A jaula não era o seu lar. Vigiei a rotina dos leões e do zelador. Vi por onde este entrou, para dar de comer aos bichos. Fui até a portinhola. Ainda peguei nas grades e no ferrolho. Meu pai, no entanto, impediu-me o desatino. Levei uns cocorotes. Papai repreendeu-me severamente:

O que é que você tem na cabeça? Minhocas? Miolo de pote, se abrisse a jaula, os leões abocanhariam você. Era o primeiro que eles veriam. Depois, o pânico tomaria conta de todos. Seria caso de polícia. Se meu filho não fosse preso, eu iria.

Papai tinha muito tino na cabeça; eu, nenhum! Dá para se ver. O velho? Está morto. De quê? Faleceu de câncer de próstata. Papai não se cuidava. Quando ia ao médico, voltava para casa zombando do profissional de saúde. Falava que não entendiam patavinas das condições físicas do paciente. Ficava azedo. A pressão alta comia de esmola. Todos da família acreditavam que ele padeceria do coração. Papai, no entanto, tinha coração de ferro. Ele sabia disto. Por isso, tripudiava dos médicos. Com sessenta e cinco anos, ele corria oito quilômetros por dia, apesar da hipertensão. Nunca vi tanta disposição física num ser humano. Era um exemplo de vida e de luta, embora fosse um bruto com os entes queridos. Sabe qual foi a única vez que vi meu pai triste? Ao perder um galo de criação para a pixilinga. O galo comia na mão de papai, as três refeições diárias. Na mão de ninguém mais ele comia, exceto a que pertencia ao velho. Confiava tanto em papai, que se deitava em seus braços, após a refeição. Cochilava, de barriga cheia. Olhos fechados. O pescoço ficava mole. Ronronava, como fazem os gatos, nos braços de seus donos ou nos cestos de almofadas macias. No dia que o galo morreu, papai não foi caminhar ou correr. Trancou-se no quarto. Presumo que chorou, baixo, sem que o escutássemos. A tristeza, porém, durou um dia e uma noite. Noutro dia, estava de pé, com o ânimo renovado, como se nada de mau tivesse acontecido. A sua capacidade de recuperar-se dos baques da vida, de maneira tão rápida, era admirável. Tinha nervos de aço. Era a única explicação plausível. Já eu… sou o oposto! Não aguento uma chuva de pedra. O que dizer de uma tempestade? Se eu fosse marinheiro, hoje, seria um náufrago.

Deito-me. Um longo vazio preenche o meu cérebro. Olho para a escrivaninha. O meu diário sonha com uma savana, cheia de anacondas, crocodilos, hipopótamos, elefantes e leões. Resmungo qualquer coisa ao léu. De ordinário, esta era a hora de fazer algumas anotações. Discorrer como fora o meu dia no trabalho. Comentar algumas fofocas. Ficar ao pé do computador. Vigiar as redes sociais. Passar uma mensagem ou outra pelo correio eletrônico. Hoje, não saio da cama por nada! Pode chover canivete, não me importo. Debaixo do lençol está quente. O forno do fogão faz frio. Cogito em esconder-me no forno. Quando criança, escondia-me na cômoda de mamãe. Papai ajudava-me. Tirava as roupas engomadas, colocava-me no lugar delas. Fechava as portas. Depois, ele pedia para mamãe me procurar. A velha num instante achava-me. Olhava para as roupas fora do lugar. Deduzia facilmente o meu paradeiro. Que gostoso! Mamãe dizia:

Achei!

Abraçava-me. Apertava-me ao encontro do seu peito. Eu pedia para mamar. Ela dava-me o peito na boca. Saciava o meu desejo por afeto. A velha fazia um cafuné na cabeça do bebê. Os olhos lânguidos de mamãe acalentavam-me. A velha cantava uma canção. Qual era a letra da canção infantil?

Alecrim, alecrim dourado. Lembro-me que brincávamos de roda, eu, minha irmã e alguns moleques de rua. Na minha infância, não havia a rede de computadores, como hoje. Gostávamos de brincar com bolas de gude. Pulávamos amarelinha. Girávamos a roda ao som do “Passarás”. Subíamos nas mangueiras. Empinávamos as pipas, que chamávamos de papagaios. Super-heróis? Os poucos que ouvíamos falar era: Mandrake, Fantasma e Shazam. Hoje, há uma superpopulação de heróis, todos ocupam a tela do cinema.

Que nasceu no campo. Estouro a cabeça na parede. Às vezes, gostaria de abrir a minha cabeça, como fazem os médicos numa autópsia. Fazer alguns xises com a caneta. Cerrar a cabeça. Deixar o cérebro descoberto, sem a caixa craniana para escondê-lo. Com um bisturi, faço uma incisão no primeiro miolo. Coloco-o sobre uma lâmina preparada. Depois, cubro o pedaço com uma lamínula. Pronto! Vou ao microscópico. Agora, sim, posso ver o que tem dentro dos meus miolos!

Sem ser semeado. A roda deixava de girar. Parávamos todos. Abaixávamos. Voltávamos a girar. Todos de mãos dadas. Os mais afoitos colocavam o peso do corpo para fora da roda. Compensávamos este artifício, fazendo o contrário. Esticávamos o corpo e púnhamos o peso para dentro da roda. Caso um de nós soltássemos o outro, a roda se desfaria. Todos caíamos no chão, como se fossemos jaca madura.

Foi meu amor. Sinto Marina a sondar-me. Os seus olhos espreitam-me. Vejo-a na janela do meu quarto. A princípio, assusto-me. Ela estende os braços. Quer me abraçar? Abraço a ilusão de Marina. Os olhos fechados, aperto-a em meus braços. Ao abrir os olhos, estou à beira da janela. São treze andares antes de chegar ao térreo. Ponho as mãos nos beirais. Isto evita a queda. Volto à cama.

Que me disse assim. Soltávamos as mãos um do outro. Púnhamos as nossas mãos em concha. Fingíamos que comunicávamos algo sério. Um segredo há muito tempo guardado a sete chaves. Que segredo contávamos um ao outro? É óbvio que nenhum. Era uma coreografia. Um fingimento que realizávamos para enfeitar a canção de roda.

Que a flor do campo é o alecrim. Que vontade de estourar os miolos! Se eu tivesse acesso às armas do filme Pulp Fiction, não pensaria duas vezes. Puxava o gatilho da pistola. Pum! Adeus, cabeça! Este e outros pensamentos de morte vão e vem, centenas e centenas de vezes por dia. Preciso livrar-me disso. Quem sabe descartar na próxima lixeira? Quem me dera fosse tão fácil assim! Estalo os dedos. A pistola do Pulp Fiction desaparece das minhas mãos. Pelo andar da carruagem, deixarei de assistir aos filmes de faroestes, gangsteres e policiais. Caso contrário, perco a vida. Os filmes excitam a violência. Mantenho-a trancada no armário das ações proibidas.

Levanto-me. Visito o banheiro. A bexiga está vazia. O estômago está oco. O que farei? Pego a faca peixeira. Atrás do espelho da pia há um armário. Escondi a faca lá, caso houvesse alguma emergência. Com a faca em mão, desço à banheira. A faca repousa no braço da banheira. Ligo a torneira. A água morna escorre suavemente. Ligo o MP5 Player. Ouço a quinta sinfonia de Beethoven. Tomo um banho no chuveiro. Ensaboo-me. Tiro a sujeira, acumulada por semanas. Se vou morrer, que me enterrem limpo! Enxugo-me com toalhas felpudas. Os fios de algodão fazem cócegas em mim. Desligo a torneira da banheira. Verifico a temperatura da água com o dedo indicador. Está no ponto certo, nem quente, nem frio. O banheiro cheira a desinfetante de buquê de rosas. Espalho umas velas coloridas ao redor da banheira. Acendo-as com os fósforos, que se esvaem ligeiramente. Trago um travesseiro inflável para descansar o pescoço, enquanto relaxo. Quero fazer uma entrada triunfal no Reino do Além. Ponho uma taça de vinho e dois pedaços de pepino, ao lado da banheira. Adiciono nove gotas de óleo de gerânio à água do banho. Mergulho dois copos de sal Epsom. Dispo-me. Entro na banheira, um pé depois do outro. O meu corpo afunda. Submergi. Morrer por afogamento? Eu? Jamais! Ainda me resta um pouco de classe. Ponho os pedaços de pepino nos olhos. Estou pronto para me encontrar com a Madame Morte. Pego da faca peixeira. Estou determinado a cortar os pulsos. Encosto a faca na cara do pulso esquerdo. Coloco-o contra a parede. Por que o sangue, ao ver a faca em riste, não corre ao contrário nas veias e artérias? O sangue não se importa com o que faço ou digo. Sou fraco. Largo a faca aos pés da banheira. Ela faz um barulho infernal. Amedrontado, fico na posição fetal. Ponho as mãos em concha nos ouvidos. Permaneço assim por uns quinze minutos. Imóvel. Daqui a pouco, enxugo-me na toalha macia. Passo um hidratante na pele ressecada. Ingiro um chá de camomila. Os nervos relaxam. No quarto, leio um livro ou assisto a um filme.

Durmo?

Quem sabe se durmo e caio no sono eterno?

Por hoje é só. Até segunda-feira (09-04-2018), às 20 h, horário de Brasília. Leia mais em meu blog Crônicas e Cônicas.

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