Vicente e suas Frases de Amor

Quem diria? Vicente, o romântico? Pois é! Nesses últimos dias, ele é o amante à moda antiga, desses que ainda manda flores e caixas de chocolate. Vicente não faz isso, porque ele gosta. Ele faz isso por pressão de Dona Clara.

No caso específico, trata-se do aniversário da esposa. Ainda na cama, antes que chegue o dia, ela cerca Vicente de carinhos. Dá uns beijos sacudidos. Faz cafuné. Faz dengos. Com um jeitinho típico de mulher conquistadora, ela sussurra, ao pé do ouvido do marido:

A-ni-ver-sá-rio…

Isto. Ela fala escandindo a palavra. Segue-se sílaba após sílaba, como formigas em fila indiana. De maneira tão rápida, que nem um raio de luz alcançaria estas sílabas.

Vicente?

Ele arrepia-se todo, da unha do pé ao derradeiro fio de cabelo da cabeça. Pergunta:

Que foi que você me disse?

Uma coisica de nada. É sobre um aniversário de certa pessoa. Esta é muito importante para a sua vida, meu amor.

Eu suponho que é a vaca Motoca. — Caso ele falasse que era a sua mãe, Dona Carolina, a sua esposa esfolava-o vivo. Por isso, resolveu chutar na vaca Motoca. O animal era inocente. Não despertaria os ciúmes de Dona Clara. — Nós temos leito todo santo dia, graças aos préstimos da Motoca. Olhe que até agora não reclamou um pingo. Eu, se fosse ela, não queria essas serventias para mim. Quando o dono viesse apertar os meus mamilos, dava-lhe um chute daqueles… ó!

É o aniversário de alguém que é mais importante do que a vaca Motoca…

Vicente coça a cabeça. Franzi as sobrancelhas. Olha para o alto, depois para baixo, como quem caça um pensamento fugidio.

Vamos, meu querido, pense só um bocadinho — diz Dona Clara, com a voz de mosca no mel. — Quem é para você mais importante do que a vaca Motoca?

Quem será essa pessoa? Mais importante do que a vaca Motoca? Só se for outra vaca. Certamente, esta não é a resposta. Caso contrário, ela não estaria tão interessada em saber quem é. Além do mais, ela não se interessa por vacas. Por que ela não me diz logo quem é? Seria tão fácil. Tipo assim: Vicente, eu falo de Dona Clotilde, a vizinha do 543. Beleza! Tudo resolvido. Se essa arrumasse alguma encrenca com a minha Flor, eu ia lá tirar satisfação com o macho dela. Assim… Desse jeito… Parece até jogo de adivinha.

Ah, essa é fácil! Faça outra pergunta — retruca Vicente, tentando desviar o assunto.

É inútil. O jogo começou. Vicente nem sequer entendeu que o árbitro apitou o primeiro tempo.

Não… — exclama Dona Clara, com visíveis sinais de antipatia. — Esforce-se! Vamos lá! Sei que consegue, meu amor.

É a Laurinha?

Que Laurinha?

A nossa filha, ora!

Quem é mais importante do que a Laurinha, Vicente? — indaga a esposa, com cobras e lagartos navegando pela boca.

Com essa, você me pegou! — disse Vicente, com cara de sonso.

Sou eu — disparou Dona Clara, largando fumaça pelos ouvidos.

E é?

Sim. Eu. A sua esposa. A mãe de Laurinha. A dona da vaca Motoca. Quem cuida de você todos os dias? Se eu deixasse, andaria que nem mendigo a pedir esmolas. Não sabe nem amarrar o cadarço do sapato. Você é uma mula, Vicente? Como pode esquecer do meu aniversário? Eu sacrifico-me tanto, por essa casa. Lavo, enxáguo, passo, engomo, cozinho. E você… para que me serve, Vicente?

Vamos por parte. Primeiro. Eu não sou mula. Mula é a Mariquinha, que você já conhece. Ela é quem faz o serviço pesado em casa. Traz as compras, nas costas, daqui a duas léguas. Aliás, a Mariquinha é uma mula santa. Jamais disse um pio. Reclamação jamais passou em sua cabeça. Segundo. Tenho serventia, embora não pareça. Sei. Quem é que recolhe o lixo todas as manhãs, de segunda a segunda. Quem? Euzinho. Quem é que se levanta cedo? O galo nem cantou no poleiro. Estou de pé. Não perco tempo, enrolando-me nos lençóis. Nem sequer dou um bocejo ou estico as canelas. Dou um pulo. Fico de pé. Desço da cama com as alpercatas nos pés. Sabe para quê? Para fazer um café preto e gostoso, que só vendo para crer. Sabe quem se esbalda de tomar meu café? Você, minha querida. Nunca ouvi você reclamar do café. Reclamou? Diga que sim!

Dona Clara foi à forra.

É… Do café eu não tenho o que reclamar. Ele sempre fica no ponto certo. Você não erra um grama a mais ou a menos. Você é um cozinheiro de mancheia. Mas, com relação ao lixo. Venhamos e convenhamos, isso não é tão importante assim. Caso você se esqueça de recolher o lixo para fora de casa, existe uma segunda pessoa capaz de realizar essa tarefa. Sabe quem é? A nossa filha: Laurinha. Tudo que você faz é poupar a nossa filha desse emprego servil. Vamos dizer que Laurinha caía doente, e fique de cama. Sabe quem a terceira pessoa a recolher o lixo? Eu! Sou eu, Vicente. Você vê como tudo nessa casa sobra para mim. Sou eu que faço tudo! O que você faz? Usa a boca para comer as refeições. Além disso, usa inadequadamente o banheiro. Até eu queria ter uma vida dessas. Você vive que nem um rei, numa monarquia perpétua. Sou a vassala real. Pau para toda obra. É isto? Assim não dá!

Ah! É assim?

Sim.

Quem capina o jardim, quando as ervas daninhas tomam de conta? Elas fazem o maior carnaval. É batuque a noite inteira até o dia raiar. As roseiras não aguentam. Quase morrem de tanto coçar os ouvidos. Diga-me quem faz isso?

Lá vem o Vicente com a sua fantasia de As Crônicas de Nárnia. Quem já viu roseira coçar os ouvidos? As ervas daninhas promoverem um carnaval de plantas? Até o C. S. Lewis jamais inventaria essas asneiras. Imagine só. Quem já viu uma escola de samba de urtigas ou de cactos? Onde está o carro alegórico? Ah! Não tem carro alegórico. Como é que elas vão desfilar? Já sei. Não me diga. Elas pegarão um tronco de jaqueira. Rolarão por cima. Está feito o carro alegórico da sua escola de samba. Arre! Essa eu pago para ver! Pronto. Falei.

É força de expressão. É para realçar as minhas ideias, que eu uso as figuras de linguagem.

Não me venha com o seu papo furado. Estou cheia!

Papo furado é o seu. Onde está a resposta daquilo que lhe perguntei?

E o que foi que você me perguntou?

Quem capina o jardim? Por acaso, você sustenta uma enxada na mão?

Sou mulher, Vicente. Não posso com a enxada, porque sofro de reumatismo. Sabe disso. Capinar o jardim é trabalho para homem.

Lá vem você, botando culpa nesse tal de reumatismo. Deixo de enxaguar a roupa, hoje. A culpa é do reumatismo. Deixou de lavar os pratos, hoje. A culpa é do reumatismo. Deixou de varrer a casa, hoje. A culpa é do reumatismo. Agora, deixar de comer e beber, ninguém deixa. Onde está o reumatismo, para deixar de comer e beber? Não tem reumatismo que chegue. A boca come livre e solta.

Agora é que a porca torce o rabo! Quer dizer que eu não posso adoecer nessa casa. Tenho que ficar 365 dias do ano totalmente sadia. Quanto ao meu comer e beber… Por que se casou, se não queria sustentar esta porca? É só isso que você falta chamar-me: de porca! É melhor você nem sequer ousar, dou um bofetão. Garanto que você cai no chão que nem um bacorinho esfomeado.

Eu não sou bacorinho?

Muito menos eu. Jamais serei uma porca!

Eu não lhe chamei de porca.

Insinuou, Vicente.

Eu jamais insinuei tal coisa.

Você é um Vicente muito do amarelo! — exclamou Dona Clara, com o dedo indicador em riste, a ponto de esfregá-lo na cara deslavada do marido.

Calma — disse Vicente, abaixando o dedo indicador de Dona Clara. — Foi só uma brincadeira. Não sabe o que a amo? Eu, nem em sonhos, pensaria em esquecer o seu aniversário. Aliás, seu aniversário é a data mais importante nas nossas vidas. Pois, foi nesse dia em que a sua mãe lhe deu à luz. Meu amor veio ao mundo. Se tal fato, que é de tão grande relevância, não tivesse acontecido… Hoje, não seríamos marido e mulher. Eu não sou tão tapado assim, a ponto de esquecer desse dia.

Hum! Acho bom você emendar-se; senão, quem vai lavar as roupas daqui de casa é você!

Então, estamos de acordo.

Acordo? Que acordo é esse? Que estrupício você inventou?

Eis que ficarei em paz, por ora!

Você quer me passar a perna, Vicente!

Eu?

Você mesmo, e quem mais seria? diga-me uma coisa: qual o dia do meu aniversário?

Golpe baixo. Com essas palavras, ela nocauteou Vicente debaixo do queixo. Que soco! Vicente cambaleou. Quase que foi à lona do ringue. Pendurou-se nas cordas. Exausto. O juiz interveio. Começa a contagem. Um. Vicente lá… parado. Imóvel. Dois. Ele abriu um olho. O mundo gira. Três. Vicente vê estrelas. Quatro. Ele aperta os olhos. Cinco. Vicente respira fundo. Seis. O fôlego volta as narinas. Sete. Enche os pulmões de ar. Oito. Recobra a consciência. Nove. Solta-se das cordas. Dez. O árbitro apita. A luta prossegue.

É… Águas de março.

Você acertou o mês… Espere aí! Águas de março é uma canção de Tom Jobim. Aliás, ele fez parceria com Elis Regina. Eu lembro-me disso.

Vicente sorri amarelo.

Você não sabe o mês do meu aniversário! — disse Dona Clara, com a voz embargada.

Já disse que é no mês de março.

Você não disse nada, Vicente. Insinuou. Jogou verde para colher maduro. Disse-me o nome de uma canção. Isso, sim. Meu Deus! Com quem fui amarrar o meu jegue? — Dona Clara desabou. Literalmente. Deixou-se cair na cama, em decúbito dorsal. O antebraço direito colou-se à testa. Um miado subiu ao peito. Ela desabrochou os lábios. Os lábios tremeram. Sussurrou algo inaudível. As mãos abarcavam o lençol abaixo dela. Os dedos: ora se comprimiam, ora se afrouxaram. Derramou-se em pranto.

Você não me ama…

Este era o derradeiro golpe da mulher. Ela sabia como agir. Sem delongas, foi direto ao calcanhar de Aquiles do esposo.

Vicente?

Derreteu-se. A palma da mão direita de Vicente aprochegou-se ao dorso de Dona Clara. Abraçou-a com todos os braços que tinha. Se tivesse mais braços, mais empregaria neste abraço gostoso. Avizinhou o nariz dos cabelos da esposa. Sentia o perfume de sândalo no ar. Colou os seus lábios na orelha esquerda de Dona Clara. Disse:

Perdoe-me. Sou um bruto. Sabe disso.

Em meio aos soluços rasgados, ela ergue a cabeça. Fita os olhos de Vicente. Sonda-os. Quer saber se ele disse a verdade ou não. Por mais que se esforce, não tem como ler as expressões faciais do marido. Dona Clara faz-se de desentendida. Indaga:

O que significa isso?

Que sou um palerma. Não sou digno da esposa encantadora que tenho.

Agora, ela lera os gestos mínimos do cônjuge. Pela entoação da voz, pelo apertar dos olhos, sabia que Vicente era sincero. Aplicou a sua emoção no que dissera.

Dona Clara, esperta que nem cascavel em pleno voo, sorriu. Às vezes, ela espantava-se com a sua astúcia. Existiria mulher mais sagaz do que ela?

Decerto que não.

O que fará para se redimir do seu malfeito?

Para ser franco, não sei.

Finalmente, ela chegara ao ponto tão almejado. Não é à-toa que preparou esta armadilha durante dias. Estudou o alvo com bastante esmero. Jamais se daria ao luxo de errar o bote.

Que tal escrever-me umas 25 frases de amor.

O quê? Tudo isso? O remédio é muito para pouca doença.

Está bem. Vou dar uma colher de chá. Aplicarei o princípio de Pareto. Conhecido por 80/20. Faça-me 5 frases de amor. Nada mais.

Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.”

Era a situação de Vicente.

Preso na arapuca da mulher, ele acedeu aos seus intentos. Até hoje, ele não sabe como a sua esposa fora capaz de enredar toda essa história. Não se deu conta disso. Nem sequer acordou para a verdade escondida nas entrelinhas.

Depois que houve o episódio narrado acima, Vicente pediu a minha ajuda com as frases de amor. Revelei o segredo de uma boa frase de amor. Sabe qual é? Deixar-se envolver pelo sentimento. O amor é arrebatador. Fascinante. Veja só o encanto que ele desperta, até mesmo em homens brutos, como o Vicente:

Primeiro. Amo você, com um amor tão profundo, que me sai pelas entranhas afora, e salta de mim para o mundo. Que vontade tenho de gritar! Declarar ao mundo inteiro, que te amo. Desde o primeiro dia que te vi, a primeira palavra que escutei. Entrou na minha vida. Mora no meu coração sem pedir licença ou pagar aluguel.

Segundo. O amor é poesia. A paixão é prosa. Simplesmente assim.

Terceiro. O amor é flor, que desabrocha até nos corações áridos.

Quarto. Jamais renunciarei ao amor verdadeiro. Ele é como vinho: quanto mais velho, melhor.

Quinto. Ainda que eu falasse incessantemente o quanto te amo, todas as palavras seriam inúteis para expressar o meu amor por você.

Ao ler o caderno de Vicente, eu aplaudi. Jamais sonhei que ele alcançasse o âmago desse sentimento tão sublime!

Por hoje é só. Até segunda-feira (05-03-2018), às 20 h, horário de Brasília, com mais crônicas e cônicas.

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Leia esta e outras crônicas no meu blog.




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