Não somos todos vira-latas

Ilustração: Conversaafiada.com.br.

Wallace Vianna é designer gráfico e webdesigner.

Uma pessoa que mora perto de mim tem complexo de vira-lata. A pessoa vive de renda (não precisa bater cartão de ponto nem acordar cedo todos os dias para ter pão na mesa) casa própria, carro, família bonita… mas basta olhar para alguém que tenha algo que ela não conseguiu – uns aninhos de estudo, educação ou mesmo um par de viagens a passeio além do que tenha feito – para se sentir um vira-latas. Ou o inverso- alguém com algo a menos do que ela conseguiu, para tratar o próximo como se fosse um.

Temos de desconstruir esse estereótipo de gente perfeita, tipo comercial de margarina.

Esse complexo de vira-latas é típico da maioria de nós latino-americanos, e vem da época do descobrimento: desde o primeiro índio que viu as caravelas de Portugal e Espanha se aproximando, trazendo espelhinhos, roupas e cultura que ele não dominava até hoje, quando encontramos um gringo speaking in english, alguém com um carro do ano ou entrando num restaurante fino… Nos sentimos “menos gente” do que o compatriota ou ser humano que está próximo, como naquele ditado inglês que afirma que “a grama do vizinho sempre é mais verde que a nossa”.

Como certa vez lí no Facebook, temos de desconstruir esse estereótipo de gente perfeita, de comercial de margarina. Temos de aprender a enxergar nossas qualidades, assim como o estrangeiros as percebem quando vêm aqui a turismo (caso contrário, não viriam nem por curiosidade).

O famoso complexo de vira-latas só faz a pessoa se sentir um vira-lata, mesmo sem o ser. Esse tipo de complexo nos faz exigir políticos de qualidade onde só existem políticos medianos para baixo, serviços públicos de excelência onde só pode haver o mínimo necessário, e a jogar pedras no time de futebol quando ele não vence o jogo das semi-finais (ver a vida como um tudo ou nada). Todos nós somos uma nota de 100 dólares, mesmo que estejamos molhadas, amassadas, sujas e jogadas.

Não somos todos vira-latas. Mas muitas pessoas fazem questão de fazer valer esse complexo de inferioridade, se verem assim, e pior, a enxergar o próximo da mesma maneira.

O complexo de vira-latas é a raiz de diversos tipos de mazelas sociais, do preconceito religioso á discriminação social. Vencer esse complexo de inferioridade é o primeiro degrau para enxergar o mundo como ele é, e não como percebemos. Ou queremos perceber.




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