3 Dicas Para Acertar o Número da Loteria dos Sonhos

Eu, que não sei para onde isso vai, deixo de afiançar as 3 dicas. Achei-as muito complicadas. Parece-me com o samba do crioulo doido. Porém, meu amigo Vicente, que é jogador nato, sabe-as de cor e salteado. Foi ele quem me repassou as dicas, as quais darei gratuitamente para você, leitor amigo.

Mas, para entender as dicas, é necessário entender de quem proveio esses palpites.

Vicente não é nenhum personagem de ficção. Desses que, a cada passo, tudo dá certo. As portas se abrem, para o personagem passar. O coração da princesa se derrete, de alegria e amores, ao ver o protagonista. Até o vilão a custo tenta matar o mocinho ou, no mínimo, detê-lo em sua jornada do herói. No final, o personagem sai das ciladas são e salvo. Ele resgata a princesa. Recebe mil abraços. Trilhões de beijos.

Não, Vicente não é assim!

Antes, fosse.

Vicente existe. Ele é de carne e osso.

Na verdade, meu amigo Vicente é filho da Caipora. Teve por pai, o Doutor Desgosto. Teve por mãe, a Dona Minguada Hora. Teve por berço, o braço da Senhora Rua. Teve por mamadeira, um chocalho de Miss Cobra Cascavel. Teve por cobertor, a Madame Poeira. Teve por fralda, o Senhor Chão. Teve por colo, o Ioiô Pontapé. Teve por canção de ninar, a Iaiá Dar-Murro-em-Ponta-de-Faca.

Na noite em que nasceu, nenhuma estrela trajou suas vestes brilhantes. A Lua ficou pálida. Coitadinha! Quase que se apagou no céu. O Sol do dia seguinte, lá do nascente, deu meia-volta. Na ponta do pé de lã, retirou-se. Sua luz desvaneceu. O Mar, portentoso, tão lindamente cantado nos versos dos Lusíadas, de Camões, calou seu rugido de fera indomável. Sentiu um biloura. Quase um passamento. O Vento deixou de soprar. Fincou o pé no chão.

— Daqui não saio, daqui ninguém me tira! exclamou o Vento, intrépido colosso.

A Atmosfera gemeu. Uivou de dor. Nem os cães e os lobos expressariam a dor pungente como os ares, que respiramos! A Chuva chorou. Muitíssima. Quase que havia outro dilúvio.

Ufa!

Aos doze anos, Vicente comprou uma calça. A primeira. Sorriso largo. O seu rosto irradiava uma energia transparente. Ao chegar em casa, ele foi logo para o guarda-roupa. Dobrou a calça com muito esmero. E guardou-a, como se guarda joia preciosa em cofre, trancado a sete chaves.

Que peninha!

No dia seguinte, a Traça malévola, com mil dentes vorazes, veio e comeu o tecido.

Um Sapo-Cururu era vizinho de Vicente. Não é que o bicho fez um ninho de seu chapéu. Alojou-se dentro do chapéu com família, cacarecos e tudo. Vicente até que tentou expulsar o inquilino. Mas o Sapo espichou a língua para fora. Vicente assustou-se. Caiu da cadeira. Partiu a costela de Adão. E ainda por cima o bicho teve a ousadia de engolir seus sapatos.

E pode uma coisa dessas?

Poder não pode…

Mas foi o que aconteceu a Vicente.

À noite, ele estirava uma rede de dormir no chão de casa. Perguntei:

Por que esse hábito tão incomum?

Ele disse que era por causa da coluna. Que doía a mais não puder. E por não aguentar as dores, estirava o esqueleto velho no chão duro. Dessa forma, a coluna parava de doer. E ele dormia sossegado.

Sossegado?

Qual o quê!

Não é que vieram uns Camundongos. Pareciam uns animaizinhos de desenho animado, que nem Tom e Jerry. Vicente nunca soube por que o Gato Tom tinha tanta raiva do Camundongo Jerry. E não é que ele descobriu por conta própria! Sem demora, os Camundongos puseram-se a roer suas vísceras. Vicente acordou. Os Camundongos, contrariados com a descortesia de Vicente, enxotaram-no.

Xô! disseram os Camundongos, cada qual uma arara de brabo. Vá dormir com as Galinhas no poleiro!

E foi o que fez Vicente.

Pegou de seus pertences. Arrastou sua mísera existência para o poleiro.

Os Camundongos?

Divertiram-se bastante na rede fofinha de Vicente. Ele pensou em tomar a rede para si, já que era o dono. Mas os Camundongos não permitiram mais esta descortesia da parte de Vicente, uma vez que eram visitantes. E como visitantes queriam gozar de toda mordomia da casa de Vicente. Era o que regia a lei da hospitalidade. Caso contrário, denunciariam sua falta de hospitalidade à Justiça do Camundongos. Daí, sua casa ficaria cheia de Camundongos. E ele que desse adeus à paz domiciliar!

Por causa disso, a fim de evitar alguma gafe com os visitantes ilustres, Vicente retirou-se para o poleiro. Mas, antes, agarrou-se com um lençol velho e sujo. Os Camundongos não fizeram questão pelo andrajo.

No poleiro, Vicente encostou-se no tronco de um marmeleiro e pendurou-se no seu galho mais forte.

Que marmelada era aquela!

O Galo se encrespou.

Ao ver aquele homenzarrão de um metro e oitenta centímetros, temeu pelo seu harém. Se as Galinhas amassem Vicente, tal como o amavam, ele que desse tchauzinho às suas necessidades de reprodução. Dessa forma, foi lá. Encarou Vicente. Disse:

Ó meu! pode tirar o cavalinho da chuva. Aqui não tem espaço para a concorrência.

Vicente murchou na hora.

Jamais pensou que o Galo fosse ralhar. Ficou vermelho que nem tomate. Dobrou o lençol, que lhe cobria o corpo. Colocou-o debaixo do braço. Desceu do marmeleiro.

E, agora, Vicente? Onde vou dormir? falou de si para si.

De repente.

Já sei!

Acendeu-se uma luz no fim do túnel. Será que é a porta de saída? ou as lanternas de um trem em alta velocidade? Para Vicente é mais provável encontrar-se com o trem no fim do túnel. E caso ele não se prevenisse, a máquina infernal atropelaria o incauto. De um jeito ou de outro, vamos acompanhar Vicente nessa peripécia fantástica.

Cabisbaixo.

Arrastou-se até a casinha de cachorro. Lá estava o seu fiel escudeiro.

O Sancho Pança?

Que Sancho Pança o quê? Sancho Pança é o escudeiro do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha.

O fiel escudeiro de Vicente era seu cão Pelé.

Eu não acredito! Vicente teve coragem de pôr o nome do Rei do Futebol num cão?

Sim. Era uma forma de homenagear o homem que fez 1.284 gols eu acho. E nem preciso dizer que Vicente era fã de Pelé. Ele tinha até a carteirinha do Santos Futebol Clube. Era sócio desde a fundação.

Pois bem. Ele arrumou o lençol no chão duro e seco. E deitou-se ao lado do seu melhor amigo. Resultado? Pelé que dormia em berço esplêndido, acordou. Tomou um susto, ao ver o dono deitado em decúbito dorsal. Não teve papas na língua. Disse:

Que palhaçada é essa?

— Dei-me ao menos um boa-noite. Toda conversa civilizada começa com bom-dia, boa-tarde ou boa-noite. Isso eu aprendi na escola.

— Nessa vida eu já vi de tudo — retrucou o cão Pelé. — Já vi uma rã empoleirada, um macaco andar de pé, uma jia chiar, até cachorro falar. Mas jamais pensei que um homem tivesse a coragem de sujeitar-se ao chão frio, ao lado de seu cão. Isso, nem em sonhos, eu sonhei!

— Dei-me uma guarida, por favor! implorou Vicente. Deixe-me dormir aqui, com você.

— Comigo, não, neném! espantou-se o cão Pelé, com a súplica do amigo. Eu só durmo com cadelas. De preferência, cachorras da minha espécie. Para manter o pedigree. Sabe como é? Sou esnobe! Esse negócio de dormir com qualquer um, não é para o meu bico.

Se Vicente fosse outro, pegaria o cão pelo rabo, ou melhor, pela cauda. Há de se respeitar as mais vis criaturas, quanto mais os cães! Bem, sacudiria o cão pelos ares, como se fosse um saco de batatas. Dava-lhe uma surra de marmeleiro. E enxotava-o para fora da casinha. Mas Vicente, leitor amigo, não é homem para essas valentias. Frouxo que nem pavio de vela. Ao primeiro sopro, findou-se Vicente. Acometido por um espasmo, caía de lado.

À luz da Lua, penou muito no quintal. Andou de lá para cá, de cá para lá. Fez tantos círculos em volta da casinha de cachorro, que cavou um fosso. A casinha parecia um castelo medieval, daqueles que tem fosso e ponte levadiça. Pois é, desses que se vê em Game of Thrones, na HBO.

Já sei onde vou me abrigar!

Destemido.

Entrou pela porta de casa. E na pontinha dos pés foi até o quarto de dormir, onde a patroa descansava a beleza. Vicente, educado, não queria atrapalhar o sono da esposa nem dos Camundongos.

Imagine se um Camundongo acorda.

E flagra Vicente invadindo seus domínios e territórios.

Armou-se a confusão!

Os Camundongos partiriam para cima de Vicente. Vorazes. Devorariam suas vísceras, seu estômago, seus olhos, suas orelhas, seu nariz, sua boca. Depois desse jantar suculento, os famigerados usariam os palitos, que Vicente escondeu na despensa, para catucar os dentes. Todos, de barriga cheia. Enquanto isso, Vicente morreria sem carne alguma sobre seu esqueleto. Aliás, apenas o esqueleto restaria de Vicente. E olhe lá! Do jeito que esses Camundongos são… é capaz de devorarem até os ossos do coitado.

Daí, Vicente chegou à cesta do Gato. Pôs o Gato no chão frio e deitou-se na cesta. Certamente, se eu der um cochilo em sua cesta, o bichano não se incomodará. Vale salientar que o Gato tinha um sono pesado. A princípio, nem sequer notou que estava no chão. No entanto, após alguns minutos, o frio incomodou o felino. Que se assustou. Pensou até que fosse o Fantasma de sua mãe, que o enxotara da cesta de vime.

Fantasma o quê?

Pois não era o Fantasma; mas, sim, Vicente. E ainda se aproveitava da mordomia. Dormia na cesta do Gato, como se o bichano estivesse numa cama de hotel de luxo. Vicente nem se importava com o frio no espinhaço do Gato.

É óbvio que o Gato arreliou-se.

E como não se irritar?

O Gato estava quieto, em seu lugar. Aí, vem o tal de Vicente para lhe incomodar a paciência. Até eu, que não tenho nada a ver com a história, tive pena do Gato!

Pois bem, o bicho não deixou por menos. Fechou a cara feia. Desenhou um esgar no rosto. Ergueu-se. Aprumou-se nas patas traseiras. Disse:

Que história é essa de ocupar minha cesta. Eu, por acaso, sou algum sem-teto? Não, isso jamais! Eu vivia bem sob o teto da abóbada celeste. Daí, Dona Clara, sua esposa, acolheu-me. Deu-me um lar e uma cesta para dormir. E você, Vicente, desfaz as ordens que ela me deu?

Vicente tremeu dos pés à cabeça. Caso respondesse que sim, ele temia que o Gato acordasse sua esposa. Dona Clara gostava de barulho. Era desbocada. Vitupérios voariam pela casa afora. No alvoroço, os Camundongos despertariam.

E até eu fecharia os olhos para não ver o fim de Vicente.

Era melhor anuir com o Gato, Vicente. Caso contrário, a esposa desferiria socos e pontapés. E os Camundongos, suas dentadas vorazes e unhas ferozes.

E foi o que ele fez.

Já entendi. Já estou puxando meu carrinho de mão.

Pegou as trouxas, que se resumiam ao seu lençol, pôs debaixo do braço, seguiu em frente.

Para onde iria Vicente?

Para canto nenhum.

Epa!

Corrijo-me. Para a cozinha de sua casa.

Para a cozinha? O que é que Vicente fará na cozinha?

Ora, o café da manhã! O dia raiava. Daqui a pouco Dona Clara acordará do seu sono de beleza. A primeira refeição do dia é a mais importante. E Dona Clara não perdia o café preto e bom do marido. Caso o café não estivesse pronto, eu não quero nem pensar. Ela era capaz de soltar os cachorros encima de Vicente. A mulher era pior do que uma megera indomável. Com seus bobes nos cabelos, presos por berilos, ela colocaria a casa abaixo.

Escreva o que eu digo.

Sim, a história está boa. A conversa franca se arrasta até altas horas. Contudo, antes que me esqueça, aqui estão as 3 dicas de Vicente para acertar o número da loteria dos sonhos:

Primeiro. Jogar 100 milhões de vezes os mesmíssimos números. Esta é uma fórmula bastante popular. É chamado o “magnetismo do Acaso”. É como se jogasse uma rede de pescar no mar, com incontáveis teias de náilon. O pescador, em pé, no barco, arrasta a rede para junto de si. E conta com a Sorte para capturar os peixes desavisados. Agora, se todos peixes forem espertos, nenhum cairá na rede. Aí, adeus tão sonhado lucro! A pesca foi em vão. Porém, os peixes não são tão espertos assim, e alguns caem na rede de bobeira.

Segundo. Ter paciência de Jó. Na realidade, esta dica é consequência da primeira. Imagine quanto tempo dura 100 milhões de tentativas na loteria! Pois é. Se você aplicar o primeiro método, sem a devida paciência, desistirá no meio do caminho. Nunca saberá se, no próximo jogo, a Sorte grande lhe sorriria. E esta dúvida cruel, seria um calo no sapato de suas ideias. Ouvi falar de pessoas que foram consumidas por ela. Tentavam dormir à noite, mas não pegavam no sono. Daí, definharam. Desfaleceram. Ficaram só os ossos no caixão.

Terceiro. A dica de ouro. O fator bola de cristal! Encontre uma cartomante que seja muito boa em sua profissão, a ponto de traduzir os números do Acaso para a nossa realidade determinística. Aí, então, seduza-a. Use e abuse de seus dotes de Dom Juan. Depois, corra para a galera, com o volante nas mãos. Um sorriso estampado no rosto. Sem dúvidas. Você acertará na loteria!

Para ser franco, eu nunca testei essas 3 dicas. Acho-as uma grande furada; maior do que o Titanic. Aquele navio enorme, que imortalizaram nas telas do cinema, com o título homônimo. Com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, como protagonistas do filme. Aquele produzido por James Cameron e Jon Landau.

Todavia, para quem gosta de dicas, deixo-as registrado em ata.

Eu, por mim, sigo a dica de Machado de Assis, em sua Teoria do medalhão: “A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra”.

Pois bem, na loteria machadiana, eu ainda me encontro entre os inúmeros malogrados. Quem sabe um dia, mesmo sem jogar na loteria dos sonhos, eu acerte com o prêmio dos vencedores.

Ah! Da próxima vez que escrever, usarei menos metáforas, senão o Editor me engole vivo.

Por hoje é só. Até segunda-feira (26-02-2018), às 20 h, horário de Brasília, com mais Crônicas e Cônicas. Compartilhe. Deixe um comentário.

Leia esta e outras crônicas no meu blog.




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