RECOMEÇAR SEM O FILHO QUE EU NUNCA TIVE.

 

Engravidei com vinte e sete anos. A descoberta foi uma das coisas que mais me deram medo na vida; fiquei confusa, estranha, tive ideias que me parecera abomináveis.

Fui para a minha primeira consulta com o médico sem saber o que fazer. Saí do consultório querendo ser a mãe do ano.

A natureza não deixou.

Perdi o bebê em um aborto espontâneo, comum nos primeiros meses de gravidez. Não pensei muito no fim que minhas incertezas tiveram, estava preocupada em ser forte, bem resolvida.

Foi inútil.

Não passei por nenhum procedimento médico doloroso, mas sofri um corte cirúrgico na alma quando um conhecido não quis entrar em detalhes perto de mim sobre a gravidez da cunhada para ” não acontecer a mesma coisa que aconteceu com a Débora”. Me tratarem com dó doeu mais que ser refém por semanas de uma situação que só era minha, mesmo com todo o apoio que tive das minhas amigas e família para suportar as idas ao médico, as licenças forçadas do trabalho, a cólica que litros de Buscopan não conseguiam aliviar.

Depois do corpo abandonado pelo meu filho que não nasceu vi um psiquiatra pela primeira vez, procurei igrejas que aliviassem minha ansiedade, tomei remédios que nunca achei que precisaria. Para o pai da criança alguns copos de cerveja para esquecer, muitas saídas e uma irmã que comemorou a minha gravidez interrompida. Para mim, o sentimento da perda de uma plenitude que nunca poderia me pertencer, de ser uma mulher feliz a menos num mundo em que ainda confundem maternidade com realização.

O que eu esperava?

A mulher que sofre um (ou mais) aborto espontâneo não inspira ensaios fotográficos, campanhas de solidariedade. O máximo que nos reservam (quando reservam) é um misto de pena e sensação de fracasso que a gente muitas vezes finge não perceber. Não são todas que depois geram um bebê arco- íris (que denominação mais linda), e é justamente para essas, as que permanecem sem filhos a parte mais sombria da trajetória.

Às vezes a gente só quer se despir do peso de uma gravidez interrompida sendo sincera, expressando nosso medo, tristeza ou até mesmo alívio e arrancar da pele a tatuagem de mulher incompetente e envergonhada com a qual muitas pessoas insistem em nos decorar. Não por frustração, mas pelo direito de sermos nós mesmas sem que ninguém nos trate como incompletas.

Nós não precisamos nos esconder, e não podemos nos culpar. Leva tempo, lágrimas e falsos sorrisos até descobrirmos que podemos ter força diante da nossa impotência em relação à natureza, e que para cada adversidade que ela nos apronta existe a possibilidade de um recomeço. Como ele será, só nos diz respeito:  a beleza em renascer depois de uma perda é uma das sensações mais destruidoras e lindas que existe.

Ainda estou aprendendo. Nunca é ou será tarde.

Já faz nove anos e eu ainda sentia vergonha.

Já faz nove anos e eu cansei de sentir vergonha.

DéboraSConsiglio

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