Vicente Contra a Febre Amarela

Prevenir Nunca é Demais

(Contado ao autor por Vicente, distinto cavalheiro das causas perdidas, encontrado num domingo, à tarde, enquanto o primeiro passeava pelos bosques da fantasia alheia.)

Acordei cedo. Lá fora, nenhum pássaro despertou o Sol. Ainda estava escuro. Ergui-me da cama. Fiz minha higiene pessoal. De pijama, caminhei até a cozinha. Confesso que claudicava. Mal enxergava o caminho. Efeito da noite de insônia. Na cozinha, preparei um café preto. Fervido, coloquei-o numa bandeja de alumínio, acompanhado por umas torradas e geleia. Fui à sala de estar. Pus a bandeja no centro. Espreguicei-me no sofá. Deitei-me, recostando a cabeça no braço do móvel. Na ocasião, encontrei o jornal do dia anterior. Ele dormia. O ronco estrondava pela casa inteira. Despertei o noticiário matutino. Os meus olhos passeavam pelas letras miúdas, que não me eram agradáveis. De repente, a notícia da febre amarela bombardeou o meu cérebro. Era necessário tomar algumas precauções. Caso contrário, todos de casa corriam o risco de contrair a famosa doença. Nos últimos dias, a doença cresceu vertiginosamente no Estado do Rio de Janeiro. Havia a possibilidade de que se alastrasse para outros Estados brasileiros. Embora os sanitaristas fossem enfáticos em desmentir tal hipótese. A possibilidade cogitada, no entanto, prevaleceu nas redes sociais. Foi um pandemônio. Pessoas enfrentavam filas quilométricas atrás da vacina. Outras procuravam os hospitais públicos e privados. Queriam saber mais ou tecer comentários ao médico, durante uma consulta. Todos estavam preocupados. Como sou mais um dentro da manada, não fiquei para trás.

Daí, resolvi compartilhar a notícia com minha esposa. Que ela cuidasse melhor de si mesma! De resto, que ficasse atenta a nossa filha, a Laurinha. Atirei o jornal de volta ao centro.

Vá dormir, preguiçoso!

O jornal deu-me ouvidos. As folhas estavam fechadas. Ele, imóvel. Parecia um bebê no berço.

Parti para enfrentar a fera em pessoa. Eu sabia que a minha esposa não gostava que a despertassem. Antes encarar os leões em sua cova do que ela. Era uma notícia urgente. Não me dei ao luxo de impor empecilhos. De todo jeito, o receio martelava-me a cabeça.

Passei meia hora, dividido entre duas ações. Primeiro, olhava o relógio de pulso. No meu íntimo, torcia para que o ponteiro dos segundos andasse mais rápido. O moleirão, contudo, mal saía do lugar. Pregaram o ponteiro dos segundos? A minha mente sugeria. Segundo, vigiava o rosto inconsútil da minha consorte. O que tanto procurava? Caçava algum indício de despertar por conta própria. Não encontrei o mínimo de vestígio. Ela dormia com os anjos. O semblante estava lívido. Leve. Solta. Suave. Aproveitei o momento para contemplá-la. Fitei cada ruga, que ela disfarçava muito bem com os cosméticos de farmácia. Olhei para a textura da sua pele. Era macia, mas tinha umas marcas indeléveis. O tempo não perdoa! Se pudesse, o famigerado matava-nos sem dó nem piedade. Como isto está longe de seu alcance, o tempo mata-nos aos poucos. Pensei por uns instantes. A seguir, recobrei o juízo. Deter-se nesse ponto, seria a perdição. Era necessário falar com Clara. Nem que isso me custe o dia de aporrinhações!

Respirei profundamente. Fiz uma pausa dramática. Fiquei em silêncio, por dentro. Serenei. Esvaziei a mente.

Resoluto, disse:

Viu a notícia que saiu nos jornais? A febre amarela não está para brincadeira. Matou mais de 100 pessoas. Se dormimos no ponto, a doença pega-nos de surpresa. Sobretudo, Clara, fique de olho em Laurinha. Qualquer sinal de picada de mosquito, avise-me.

Picada de mosquito? Onde está o facínora? — indagou Clara. Ergueu o busto acima dos travesseiros. Olhou para todos os lados. Estava à caça do mosquito.

De uns tempos para cá, ela anda com os nervos à flor da pele. Presumo que seja a menopausa. Às bicas, o suor escorre de seus poros. Ela comprou um leque. Abana-se com ele, como lenha em fogão. Às vezes, fico encucado. Pergunto: “Meu bem, precisa de mim?” Ela responde, com um sorriso amargo, estampado no rosto límpido: “Não, obrigada”. Antes que eu diga qualquer coisa, completa: “São coisas da idade…” Não discuto. Calo-me. Sempre digo de mim para mim: Mulher sabe o que diz. Quando não, adivinha.

Clara. Eu falo de prevenção. Adotaremos medidas preventivas contra o mosquito Aedes aegypti. Primeiro, evitaremos o acúmulo de água parada em reservatórios, latas e pneus. Emborcaremos tudo!

Latas não temos. Pneus, somente os que se usam nos carros. No que diz respeito aos reservatórios, temos as caixas d’água. Não se preocupe! Os fios de arame abraçam-nas firmemente.

Aplicou o inseticida, hoje?

Depois do surto da dengue, fazemos isso duas ou três vezes por semana.

Como é que eu não vejo?

Aplico na casa toda, antes que você chegue do trabalho.

Hum! O que me diz do uso de repelente contra insetos?

Não abrimos mão disso, também.

Por que eu não sinto o cheiro?

Porque é inodoro, seu bobo! Ontem, quem passou o repelente em você foi eu.

Que hora? Eu não me lembro.

Quando passei o hidratante na sua pele. Se eu não passo os cremes em sua pele, você não se cuida. O povo logo diz: “Ele anda desleixado por conta da mulher. Ela não se importa com o coitado.” Eu gosto de fechar a boca maledicente do povo.

É por essas e outras que eu amo minha esposa. Ela faz o serviço do salão de estética em minha casa, sem contar o resto. Corta as minhas unhas. Lava os meus cabelos, com xampu e condicionador. Borrifa o meu perfume em mim. Limpa meus olhos, ouvidos e nariz. Engraxa os meus sapatos. Amarra a gravata do paletó. Se a secretária do lar deixasse, a minha esposa faria o impossível por mim. É a esposa exemplar.

Ao falar isso, todos pensam que ela é prendada. Que faz tudo por amor! Isto é apenas meia verdade. Primeiro, tudo que ela faz é por mania de limpeza. Presumo que ela sofra de transtorno obsessivo e compulsivo. Inúmeras vezes, flagrei a minha consorte fazendo o mesmo trabalho de Cláudia. Exclamo:

Se for para você perder o seu tempo com as tarefas de Cláudia, não carecemos de secretaria do lar!

Ela retruca:

É mania. Gosto que tudo seja feito com perfeição.

Clara pensa que as demais pessoas são imperfeitas. Por isso, tudo que fazem é imperfeito. Somente ela é perfeita. Tudo que faz é exemplo de perfeição. Seu jeito de encarar o mundo. Eu, por mim, cogito que nem sempre as pessoas refletem sobre suas ações. A maioria do que fazemos é por questão de hábito. De tal maneira, que não podemos julgar as pessoas pelo que fazem ou dizem. É necessária uma sucessão de acontecimentos, para conhecermos melhor as pessoas. Isto nos sucede com a convivência diária e constante. Fora desta convivência, há muitas especulações. Por conseguinte, especulações geram boatos. Aliás, boatos são conversas cabeludas sem fundo de verdade.

As roupas que cubram o corpo todo?

Dos pés à cabeça.

Verdade? — perguntei.

Sabia que não devia perguntar. Clara tem resposta para tudo. Conhece de astrologia até zoologia. Sabe o abecedário da sobrevivência conjugal de cabo a rabo. Eu, no entanto, tinha dúvida. No caso de dúvida, pergunto. É menos um peso na minha consciência.

Já se olhou no espelho?

Vamos ver!

A mulher pegou de um espelho, perto da escova de pentear, que escondera na cabeceira da cama.

Tome! Segure! Veja com seus olhos!

Sou eu. Daí?

Você veste um pijama com mangas e calças compridas.

Como não pensei nisso? É tão óbvio!

Porque eu vivo nesta casa, para que você não pense nisso.

O que dizer do mosqueteiro?

No meu celular, dentro da caixa de mensagens, há um aviso de entrega. Chega hoje.

Puxa! — Espantei-me com a sua eficiência.

Eu vivo para agradar ao meu tigrão! — disse, fazendo-me cócegas debaixo do braço direito.

Abracei-a. Ela esperava por algumas palavras de carinho. A minha cabeça, porém, não atinava com isto. Cada pensamento detinha-se na notícia alarmante do jornal.

Ela fitou-me. Entrou pelas janelas dos meus olhos. Sondou a minha alma. Descobriu algo.

O que foi?

A vacinação? — indaguei, pressuroso.

Clara segurou-me a nunca, com sua mão doce. Recostei a cabeça em seu ombro. O perfume, que ela usava, evolava pelo quarto afora. Clara acariciou os meus cabelos. Depois, entreolhamo-nos por um longo minuto e meio. Enamorados.

Você solicitou as vacinas para nós, anteontem, à noite. A farmácia avisou que o estoque acabou. O nosso pedido está reservado para o próximo carregamento de vacinas.

Quando será?

Segunda-feira.

Na outra semana?

Sim.

Sosseguei o meu coração. Por enquanto, tudo que estava ao meu alcance fora feito. O resto é sonho e fantasia. Quantos sonho e fantasia vagam pela minha cabeça? Desperto, sou uma máquina que serve à imaginação fértil.

A Suspeição dos Sintomas

Três dias depois, eu deitara-me cedo, exausto do trabalho. Minha esposa acalentou nossa filha. Pôs a menina no berço. A seguir, deitou-se ao meu lado. Como de costume, Clara gosta de conversar. Antes de pegar no sono, ela fala mais do que o homem da cobra. No meio do falatório, pingou a sopa no mel.

Amor…

Quando Clara começa uma frase com “Amor”, prepare-se. Lá vem bomba!

O que será dessa vez? Recapitulemos o que fiz durante o dia. Acordei cedo. Tomei meu café. Não deixei os pratos sujos na pia. Lavei-os todos. Escovei os dentes. Banhei-me. Ensaboei-me. Enxaguei-me. Vesti-me. Tal como manda o figurino. No sanitário, não deixei a escova em cima da pia. Fechei a tampa da bacia. No quarto, não deixei a toalha molhada em cima da cama. Os sapatos estão dentro da sapateira. Fui ao trabalho. Almocei fora com os amigos. Cheguei do trabalho. Jantei. Portei-me bem à mesa. Os cotovelos não encostaram nem sequer um centímetro na mesa. Coloquei o guardanapo debaixo do prato e o outro no meu colo. Será que foi os talheres? O garfo estava na mão direita e a faca na outra. Preciso lembrar-me disso. Um erro mínimo de boas maneiras é motivo de chacota. Para não dizer, amolação. Banhei-me novamente antes de vir para cama. Perfume. Desodorante. Passei o pente nos cabelos. Mau odor caminhe para longe de Clara! Figura de fantasmas, com cabelos assanhados, que fuja para além-mar! Ela pode atirar o pau no gato, caso veja algo fora do lugar. Sua vida é um relógio. Todos os dias são mecanicamente iguais.

Fale!

Demonstrei bastante atenção, fitando-a. Caso não a fitasse, ela diria que eu estava distraído. Cortava a conversa pelo meio. Embirrava.

Laurinha estava tão cansada…

Foi um dia cansativo para todos nós, — referia-me principalmente a mim. A análise dos relatórios da firma provocava-me dores insuportáveis no pescoço. — Ela brincou muito nos corredores de nossa casa.

Clara olhou-me de viés.

A cabeça de Laurinha latejava de dor.

É por conta do barulho dos veículos. Lembre-se que moramos num bairro próximo ao centro da cidade. Carros e motos trafegam dia e noite por cá. Realmente, fazem um barulho infernal.

A minha esposa espichou os olhos arregalados.

Nossa filha teve dores musculares, assim que voltou da escola.

Hoje é terça-feira.

Daí?

É dia de educação física. A coitada esforçou-se em demasia no jogo de handebol. Ela é atleta. Gosta de correr com a bola na mão e enfiar a dita entre duas traves. Orgulhe-se disso!

Os olhos de Clara desenharam uma circunferência no ar.

Depois, ela sentiu calafrios.

É a mudança de temperatura. À tarde, até eu senti. Hoje em dia, ninguém sabe se faz calor ou frio. Se vai chover ou fazer Sol. Os meteorologistas não acertam o relógio do clima. Ora atrasam, ora adiantam.

A minha consorte suspirou alto.

Que foi que você fez? Olhe que, desse jeito, acorda a menina! Se ela acordar, quem ninará aquele pingo de gente é você. Onde já se viu… nem respeita o sono de uma criança?

Hã!

Não se faça de sonsa! Este olho é irmão do outro.

Clara pigarreou. Eu estava a ponto de ralhar. Ela interrompeu meus devaneios.

Laurinha vomitou na sala de aula.

Quem lhe disse isso?

A professora. Quem mais seria?

Estalei a língua em sinal de descrença.

O que ela pôs para fora do estômago?

Suco de acerola.

A menina teve uma crise de vômito, ontem. A professora, desavisada, oferece suco de acerola na hora do recreio… Coitada! Ainda bem que vomitou.

A náusea?

Ela é muito pequena. As regras das mulheres estão fora de cogitação. Resta-nos o suco de acerola.

O suco de acerola?

Ora! Se a menina vomitou, é comum sentir um mal-estar na barriga. Como é pequena, não sabe o que diz. Talvez seja o mal-estar que ela chame de náusea.

Clara tamborilou os dedos na cama. Ouvi um resmungo. Não discerni as palavras. Eram imperceptíveis. Quando ela faz esse gesto, estou frito. Cometi um deslize. Por que ela desfiava um sintoma após outro? Ela era médica frustrada. Não completou a faculdade. Embora fosse mãe. Conhecesse a filha melhor do que eu.

A febre alta?

Febre? Quem teve febre?

A Laurinha. Ao deitá-la, notei que o corpo estava quente.

Eu não acredito! Você aferiu a temperatura?

Claro que sim. Trinta e oito graus Celsius.

É preocupante! Onde está o termômetro? Vou lá!

Clara segurou-me pelo braço. Mirou dentro dos meus olhos. Queria revelar-me algo? Antes, sondou meu estado de ânimo. Talvez tivesse medo da minha reação. Ela sabia o quanto eu gosto da nossa filha.

Você ainda não percebeu?

Perceber o quê? Que nossa filha está com alguma infecção? É óbvio que sim.

Escute-me: cansaço, dor de cabeça, dor muscular, calafrio, vômito, náusea e febre alta.

Num átimo, um raio fuzilou a minha cabeça.

Não me diga! Ela está com febre amarela?

Os sintomas apontam para isto.

Você não se toca, mulher! Como é que me fala com uma calma dessas? É a vida da nossa filha que está em risco!

Agora, o belo adormecido acordou! — disse a minha esposa, em tom de gracejo. — Pior seria se ela apresentasse os demais sintomas.

Que demais sintomas são esses?

Hemorragia, icterícia (olhos e peles amarelados), insuficiência hepática e renal. Você está pálido?

Resoluto, sem querer ouvir mais um til da conversa mole de Clara, retruquei:

Vou trocar de roupa. Pegar as chaves do carro. Você apronte a menina. Vamos para o hospital! Não perca tempo. Vista apenas o básico.

Era isto que eu temia…

Clara, deixe a demora de lado! Não verei minha filha morrer, com as mãos atadas!

Ação sem Cinema

Enxotei as duas do quarto. Disse:

Vamos para um hospital, não para um concurso de beleza?

Vicente, seu bruto! Se as minhas amigas me pegam assim… eu morro de vergonha.

É mil vezes melhor que você morra de vergonha. Já pensou se nossa filha morre de febre amarela?

Clara terminou de aplicar a maquiagem, nem sequer escutou o que eu disse.

Quando elas subiram no carro, fechei a porta do motorista com toda força. Elas assustaram-se com o barulho. Queria demonstrar a urgência do caso.

Cantei pneu. Cada minuto, conta. Caso não fizesse isto, o sentimento de culpa invadiria os meus pensamentos. A minha filha morreu por minha causa. Jamais!

Louca carreira. Fiz tudo de errado. Tudo que tanto odeio. Furei sinal. Quase atropelei uma velhinha. Bati num cachorro solitário. Por um triz, não houve um acidente de trânsito. Ao ver-me atarantado, o outro motorista tirou o carro da estrada. Deixou a passagem livre.

Clara apertou o cinto de segurança contra o peito. As pernas esticaram-se. Ela estava tensa. Admirei-me por não reclamar durante a viagem.

À entrada do hospital, assim que pulou do carro, ela agarrou a menina em seus braços.

Está maluco! Quando for para morrer, pode deixar que dirijo! — gritou. Fechou a porta do carro com toda força. Bum!

Sei. Se ela pudesse, desferia golpes de socos e pontapés em mim. Os hematomas pipocariam por toda a pele. Os olhos não negavam. Queria me ver morto. Virei a cara. Recuperei o tempo perdido com a maquiagem. Quem sabe? Da próxima vez, ela não faz ouvido de mercador.

Entrei com tudo no hospital. Corri o guichê da atendente de plantão. A mulher estava com os olhos vermelhos. Sono acumulado. Noites maldormidas.

Uma consulta, faz favor.

Qual o médico?

Pediatra.

A essa hora da noite, estão nas suas casas. Dormem o segundo ou o terceiro sono.

Qualquer um serve! — disse, atarantado. Por que eu sempre esbarro com as engraçadas? Era a minha esposa e, agora, a atendente. Enquanto eu me desespero, ninguém está dando a mínima para as minhas preocupações de pai. Ferrei-me!

Você quis dizer: um clínico geral.

Este serve — resmunguei, inaudível. — Desse jeito, até um cirurgião-dentista vem a calhar.

O quê?

Nada! Conversa com os botões da camisa.

Este serve — resmunguei, inaudível. — Desse jeito, até um cirurgião-dentista vem a calhar.

Para o senhor, deseja algo mais?

Se eu não estivesse no hospital, e alguém me contasse isso, diria: “Isto é conversa de garçonete. Dessas de bar de esquina. Elas oferecem um copo de uísque e, depois, estraga tudo. Leva um copo de cerveja para o cliente.”

Não entendi o “algo mais”?

Quem sabe o senhor precise de acompanhamento psiquiátrico? Temos ótimos psiquiatras em nosso cardápio. Epa! Digo, em nosso prontuário de atendimento.

A minha esposa e filha chegaram a pouco. A criança pendurava-se no balcão de atendimento. Balançava as pernas para cima e para baixo. Clara olhava-me com cara de quem comeu e não gostou. Lembrava-se da corrida de fórmula Indy pelas ruas da cidade.

Senhorita, não faço questão de ir ao manicômio, caso você se divirta nas grades da cadeia!

A atendente assustou-se. Esticou o rosto para trás, como quem fora pego de surpresa por um susto inaudito.

Clara ouviu a minha indiscrição. Deu-me uma cotovelada na costela de Adão. Estrebuchei de dor.

Desculpe-me a indelicadeza do meu marido. Ele é um bruto contumaz. O que ele quis dizer, com seus modos de brutamontes, é que precisamos de uma consulta para a nossa filha. Suspeitamos de febre amarela.

Ao nome de febre amarela, a atendente alarmou-se de vez. Num instante, apertou um botão vermelho, que se escondia debaixo do balcão.

Súbito. Apareceu dois enfermeiros e um guarda-noturno. Pensei: Dessa vez eu não escapo. Vou direto para o manicômio. A Clara vem comigo. A atendente contará um segredo aos homens de jaleco. Do ocorrido, nem sequer uma vírgula faltará.

A atendente, no entanto, apontou para a Laurinha. Disse:

Caso de urgência! Suspeita de febre amarela.

Todos acataram a ordem da atendente. A minha filha foi para a ala de observação, junto com a Clara. Eu? O guarda-noturno barrou-me a passagem.

Sentei-me numa poltrona de pedra, com colchonetes de plástico. Pus-me a ler os jornais e revistas, que dormiam num móvel quadrangular, no meio da sala de espera. Todos os noticiários eram do mês passado para trás. O televisor chiava. De hora em hora, passava uma propaganda de eletrodoméstico ou de lazer.

Três horas voaram. Pareciam-me uma eternidade.

Por fim, chegou uma notícia alvissareira. A menina contraiu uma virose. As suspeitas de febre amarela não se constataram. Após o resultado do exame de sangue, receberíamos outro diagnóstico.

Suspirei, aliviado.

Não sei o que seria da minha vida sem a minha filha. A Laurinha é bagunceira. Criança que desarruma a casa. Põe o lar de cabeça para baixo. A mãe vive a correr atrás da sapeca. Ela pendura-se em tudo quanto é canto. Desamarra os meus sapatos. Esconde os cadarços. Põe fogo na lata de lixo. Sobe no telhado, no encalço de gatos. Diz que é para resgatar os bichos, presos entre uma telha e outra. No final, quem precisa de resgate é ela. Quem sobe no telhado? Quem a tira dessa enrascada? Eu, que sou o seu pai.

Amo a minha filha. Sinto saudades, se passo alguns minutos longe de suas reinações. O que dizer de Clara? Vale a pena viver com ela. Ensinou-me a ser quem sou: desbravador das terras longínquas do amor.

Por hoje é só. Até segunda-feira (19-03-2018), às 20 h, horário de Brasília, com mais Crônicas e Cônicas.

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